Da letras para a publicidade: uma trajetória improvável, mas possível
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Mulher escrevendo de lápis em um caderno. Em sua frente um notebook aberto.

Da letras para a publicidade: uma trajetória improvável, mas possível

Esse texto é sobre segundas opções e como elas podem trazer grandes surpresas na vida. Mas também fala sobre linguagem, marketing e escolhas profissionais. O que tudo isso tem a ver?

Pra entender a gente precisa voltar lá no final de 2012, quando a pandemia não existia e a gente andava por aí livremente – bons tempos. A minha trajetória começa ali, quando precisei fazer a escolha tão temida por jovens e adolescentes, o caminho profissional. Durante todo o processo do ENEM eu estava muito decidida: jornalismo.

Mas eis que foi preciso uma segunda opção. “Porque não o curso de Letras? É a sua cara”. E toda vez que eu ouvia isso, pensava que ser professora não era muito meu estilo. Mas mesmo assim coloquei o curso como essa segunda opção.

Com a chegada de 2013 eu tive duas surpresas: a primeira que o mundo não acabou como os maias queriam e a segunda – e talvez a mais importante – foi que eu acabei entrando pro curso de Letras mesmo. As aulas começaram em março e eu, no auge dos meus 18 anos, entrei de cabeça na experiência.

E agora, oito anos depois, eu digo sem medo: foi um dos melhores momentos da minha vida. E eu te conto porque.
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Por dentro do curso de Letras

É comum que se pense que o curso de Letras seja voltado para escrita, regras gramaticais e ortográficas da língua portuguesa. Talvez até seja um pouquinho relacionado com o jornalismo, não é? É, eu sei que você pensa que sim, porque eu também pensava quando entrei.

Eu realmente achei que fazer o curso de Letras ia abrir o meu caminho para a comunicação – o que na verdade aconteceu, mas não como eu imaginava. No primeiro semestre encontrei um curso bem estruturado e um papo bem reto da coordenação: “se você está aqui querendo descobrir se gosta ou não, descubra primeiro, não fique gastando dinheiro público”.

Essa reunião de boas vindas me marcou profundamente. Tanto pela seriedade da discussão, que com 18 anos a gente não imagina ter, e também por entender que já tinha feito a minha escolha, concluir a faculdade de Letras.

Sabe aquele papo de propósito? Eu acredito muito nisso, se estava ali, naquele momento, é porque precisava estar. E assim segui, uma xerox de cada vez.

Letras, língua, linguística e inglês

Oito anos atrás era preciso fazer um ano de curso antes de escolher a especialização. Hoje você já entra escolhendo entre português, inglês, espanhol ou francês (pelo menos aqui no Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia).

Então, naquela época, eu concluí o primeiro ano sabendo que o curso de português não era sobre regras gramaticais. Era sobre muito mais que isso.

Olha, o curso de Letras forma professores. É simples assim. Mas não é uma capacitação focada totalmente em didática, há discussões muito profundas a respeito de aprendizagem, ensino de línguas, literatura e a minha matéria preferida: linguística.

Você já parou pra pensar porque “árvore” chama “árvore”? E porque toda vez que falo “cadeira” a referência vem direto na sua cabeça? Ou quem sabe já pensou como a linguagem é processada no nosso cérebro até chegar na nossa língua? Essas são uma das várias discussões que temos nessa disciplina e que despertaram em mim um interesse muito profundo sobre isso tudo.

Naquela época eu já flertava bastante com a língua inglesa, já tinha feito meus cursos de idiomas que todo mundo faz “pra ter um futuro”. Mas o que foi me apresentado ali é muito mais do que língua, eram discussões sobre:

  • Porque aprendemos o inglês?
  • Porque é necessário?
  • Como ajudar um aluno no processo de aprendizagem de uma língua estrangeira?
  • E como conciliar isso com a identidade em construção?

E aquilo lá, amigos, fez todo o sentido pra mim. Então eu segui esse caminho, a da língua inglesa.

Não me entenda mal, o português sempre foi minha grande paixão, na escola sempre foi minha matéria preferida. Eu curtia mesmo aprender as regras, as conjunções, a perguntar pro verbo qual era a regência dele (alô silvão, meu grande professor, um abraço pra você).

Entre inglês e linguística eu optei pelo inglês e me formei nisso. Me aperfeiçoei no writing, listening, speaking and teaching. Fiz os meus vários estágios em escolas públicas, particulares e senti o fardo pesado que meus colegas carregam.

Não é fácil, é penoso, mal remunerado e pouco valorizado (coisa que você já sabe). Mas quero deixar aqui a minha admiração e o meu respeito aos meus colegas que vivem isso diariamente e continuam amando a profissão.

Mas, para mim, ainda não era aquilo. Foi aí então que…

Descobri a publicidade

Eu lembro que, quando criança, eu amava assistir as propagandas do Itaú e do Banco Real que passavam na televisão. Ficava pensando “que pessoal criativo né?”. A verdade é que sempre me imaginei trabalhando com publicidade, trabalhando ativamente com a criatividade e com as palavras.

Muito disso influenciada pela minha mãe, uma arte finalista apaixonada pelo que sempre fez. Desde pequena eu testemunhava a arte de diagramar, criar e finalizar arquivos. E foi ela mesma que me ensinou a montar peças e usar a minha criatividade. Anos depois, eu ensinei um pouco sobre o Illustrator pra ela.

“Mas então porque você não fez o curso de publicidade de uma vez?” – você pode estar se perguntando. Primeiro, aqui na cidade essa faculdade é paga e não tem um currículo tão legal como eu queria. Cheguei a cogitar outras cidades, mas esses planos não estavam dentro do orçamento da minha família.

Mulher olhando para tela de notebook aberta, ao lado livros e um copo. Ao fundo, mais cadeiras e uma pessoa sentada.

Me permiti sonhar outros sonhos. E no curso de Letras você também precisa trabalhar com as palavras e muito mais com a sua criatividade. Como você acha que um professor torna o verbo “to be” interessante para adolescentes? Precisa de jogo de cintura, minha gente.

Mas, pra mim, ainda não era aquilo ali, sabe? Então em 2015 surgiu uma oportunidade: um estágio em uma agência de publicidade. E como eu sempre quis estar nesse contexto, aquele era o meu momento. Trabalhei lá por quase 2 anos e fiz de tudo: atendimento, social media, redação, revisão de texto e de arte, conselheira amorosa, psicóloga…

Brincadeiras à parte, ali eu aprendi muito sobre a área. Consegui desenvolver bastante essa parte criativa que eu tanto queria, mas estava prestes a me formar e batia aquela vontade de fazer algo mais, a ter no meu currículo algo além da formação em Língua Inglesa. Foi aí que comecei a estudar para o Mestrado em Linguística.

Mestrado e a volta ao mercado de trabalho

No final de 2017 voltei pra faculdade para me aperfeiçoar mais e “voltar pra minha terra”: a linguística. Só que eu também queria mesclar com a realidade que eu vivi por 2 anos no estágio, queria falar sobre o que falava comigo: as mídias sociais.

Foi daí então que surgiu a ideia para minha dissertação: o discurso da beleza e as influenciadoras digitais. Se você quiser ler, tá bem aqui e se for citar lembra da pesquisadora aqui, hein?

Fiquei quase 2 anos fora do mercado de trabalho e na hora de voltar me senti muitas vezes fora do cenário, incapaz e “antiga”. E se você trabalha com marketing, sabe bem o que eu estou falando. Cheguei a mandar meu currículo para vários lugares (olha só, ainda falo currículo, e na verdade é portfólio) e recebi resposta de uma empresa que me acolheu e pela qual escrevo aqui com muito amor.

Me candidatei à vaga de revisão de textos porque é uma coisa que eu gosto e sou muito boa. Gosto de saber que essa frase tá errada e sugerir como melhorar, é a parte professora que habita em mim, sabe?

Também gosto de “palpitar” nos layouts alheios dizendo coisas como: “essa frase poderia ser melhor diagramada”, “essa imagem tá torta”, mas tudo dentro da normalidade de uma agência, não sou palpiteira por diversão.

E aí você pode estar se perguntando, mas e aí linguística e marketing tem a ver? E como.

Marketing e linguística: tem a ver?

Se você chegou até aqui é porque está curioso sobre esse assunto, e eu já te conto de cara: quer vir pra publicidade saindo da letras? Foque na revisão. Essa é uma área muito carente e necessária na profissão. Mas não vai achando que vai transformar todos os textos em pequenos fragmentos de “Senhora” de José de Alencar. Não é sobre isso.

Em marketing também existe o quê, quando e, principalmente, o para quem. E se você já terminou o curso de Letras sabe bem que a comunicação é muito mais sobre ser entendido do que sobre regras, certo? E essa é toda a graça (e privilégio) de ter uma mente ciente dos processos linguísticos na comunicação.

A minha entrada para o mercado de trabalho em marketing de conteúdo começou com a revisão, mas se estendeu para além disso. Ter essa pegada de entender o poder das palavras te capacita para muitas coisas. E vamos falar a verdade? Em publicidade se trabalha com emoções por meio delas: as palavras. Mas será que você sabe como usá-las?

Mulher escrevendo de lápis em um caderno. Em sua frente um notebook aberto.

É preciso ter cuidado. Na sua mão existe uma benção e uma maldição: você pode escolher ser verdadeiro ou ser falso. Vale tudo na hora do argumento? Eu acredito que não. É preciso olhar para aquele job entendendo duas partes: o que o seu cliente quer e o que o lead busca e trabalhar muito pra encontrar o ponto de encontro.

Uma coisa que ajuda bastante: estar consciente e ser intencional nas suas escolhas. Se a sua praia é a escrita, vai fundo, esteja ciente da sua capacidade. É algo mais voltado pra parte de design? Esteja igualmente ciente do seu potencial.

Eu falo isso porque em uma das disciplinas do primeiro semestre, estávamos aprendendo sobre técnicas de aprendizagem e tinha um teste para descobrir a sua. O teste era em inglês e dividia as inteligências entre:

  • Logical-mathematical;
  • Linguistic;
  • Spatial;
  • Musical;
  • Bodily-kinesthetic;
  • Interpersonal ou
  • Intrapersonal.

São várias e quando descobri a minha fez total sentido: eu aprendo melhor escrevendo. E isso vem desde o ensino fundamental e foi se aperfeiçoando no ensino médio. Hoje, depois de descobrir tudo isso sobre mim, me sinto muito mais consciente dessa minha habilidade e, consequentemente, mais preparada pra escrever.

Revisão, redação, copywriting?

No final das contas, a escolha profissional não é feita ali no momento de selecionar uma opção no site do SISU. Tem a ver com todo o seu processo ao longo da vida: seus gostos, habilidades, tendências, experiências profissionais e pessoais também. Tudo te constrói, te molda, faz você ser quem é. E depois de alguns anos é possível entender: era pra eu estar aqui.

Pode parecer um papo meio emocional demais, mas essa foi a minha experiência. Sempre gostei de usar a minha criatividade escrevendo, comunicando e pensando em maneiras diferentes de fazer alguma coisa. E ao fazer o curso de Letras me tornei mais consciente a respeito da linguagem, das minhas habilidades e da forma como o outro pode receber aquilo que eu digo.

E isso impacta diretamente no trabalho que faço hoje. Atualmente minha função é criar conteúdo com essa equipe maravilhosa, mas também tenho buscado melhorar minhas habilidades de copywriting. Durante determinado curso, um professor disse: quer ser copy? leia, leia e leia. E eu boto muita fé nesse conselho, é preciso ler pra saber escrever. E você pode ler o que quiser.

Você, por exemplo, acaba de ler quase 2000 palavras sobre a minha história que tem a ver com linguagem, marketing e escolhas profissionais. E, se quiser, ainda pode aprender mais com esse relato da minha amiga Andressa sobre a história dela com a automação de marketing.

Te vejo lá!

Sobre Tainá Terence

Formada em Letras-Inglês e Mestre em Linguística, atua revisando, escrevendo e lendo desde 2015. Isso poderia até ser uma descrição do Lattes, mas é só pra dizer que saiu da Letras e se encontrou na Publicidade. Trabalha na Cubo como Analista de Conteúdo, nas horas vagas assiste séries e compartilha memes.

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